Notícias

A cheia dos rios que avançam pelas cidades não é apenas uma resposta da natureza

É com profunda preocupação que acompanhamos os impactos devastadores das recentes chuvas no estado do Rio Grande do Sul. Estamos diante do maior desastre climático da história do estado, 332 municípios afetados, ou seja, mais da metade do território gaúcho  – que compreende um total de 497 municípios – com mais de 80 mil pessoas desalojadas, segundo dados da Defesa Civil do estado até 05/05/2024. A capital do estado, Porto Alegre, está ilhada em diversos bairros, incluindo áreas centrais, com racionamento de água decretado, diversos pontos de alagamento e o aeroporto fechado. 

É importante ressaltar, no entanto, que esses eventos não podem ser considerados somente enquanto desastres naturais e nem mesmo como consequências inevitáveis. Estamos tratando sim das consequências de escolhas políticas, muitas delas que, inclusive, poderiam ter sido feitas para mitigar os efeitos do que acompanhamos hoje.

A cheia dos rios que avançam pelas cidades não é apenas uma resposta da natureza. É uma tragédia que estava anunciada ao menos desde as enchentes ocorridas nos municípios do estado, ainda em 2023. Além disso, as políticas de prevenção de desastres climáticos não foram prioridade para a administração do governo do Rio Grande do Sul que, inclusive, deu início ao seu mandato atropelando as políticas ambientais. O atual governador do estado, Eduardo Leite, cortou ou alterou quase 500 pontos do Código Ambiental do RS apenas durante o ano de 2019.

É inegável que a magnitude dos danos causados pelas chuvas está diretamente relacionada à falta de investimentos em infraestrutura adequada, planejamento urbano e medidas preventivas. A negligência na gestão de recursos hídricos, a ausência de sistemas eficazes de drenagem e o descaso com áreas de risco são apenas algumas das falhas que contribuíram para a gravidade da situação que presenciamos hoje. 

Neste contexto, é imperativo que se reconheça a responsabilidade das autoridades competentes na proteção das comunidades vulneráveis e na adoção de medidas preventivas eficientes. É necessário que sejam tomadas medidas imediatas para enfrentar os efeitos das chuvas, bem como a elaboração de planos de ação – de forma participativa –, para prevenir futuras tragédias. Visto que eventos climáticos extremos vêm se tornando recorrentes nas diferentes regiões do país, colocando a urgência de revisarmos o modelo de desenvolvimento urbano que vem sendo adotado e a necessidade de revermos as políticas urbanas a partir da perspectiva das mudanças climáticas. Sem isso, a única pergunta que resta é saber é: em que cidade será a próxima “tragédia”?

7 de maio de 2024